Ele apertou os punhos.
— Porque se eles descobrissem que tinhas alguma ligação comigo… desapareceria.
Aquela frase gelou-me o sangue.
Olhei novamente para a divisão.
As fotografias.
As provas.
Tudo… não era obsessão.
Era proteção.
Da forma mais retorcida possível.
— E agora, o que vai acontecer…?! — perguntei. — Vais continuar “morto”?
Ele olhou para mim.
Durante muito tempo.
Depois, negou com a cabeça.
— Não.
Uma única palavra.
Mas fez o meu coração disparar.
— Já acabei com tudo — disse ele. — Hoje… é o último dia que tenho de me esconder.
Prendi a respiração.
— E…?!
Ele aproximou-se mais.
O suficiente para eu poder ouvir o seu coração.
— E voltei… para escolher.
— Escolher o quê?
Olhou-me nos olhos.
— Escolher entre continuar desaparecido… ou voltar a viver… e enfrentar as consequências.
Uma lágrima percorreu a minha bochecha.
— E eu…?! — perguntei. — O que sou eu nessa decisão?
Ele não respondeu de imediato.
Em vez disso…
Levantou a mão.
E tocou suavemente no meu rosto.
Aquele gesto.
Familiar.
Quente.
Real.
— Tu… és a razão pela qual voltei.
Três semanas depois…
Partimos da cidade.
Sem cerimónia.
Sem explicações.
Sem despedidas.
Apenas duas pessoas… que se perderam… e se encontraram de novo.
Recomeçamos do zero.
Num sítio onde ninguém sabia quem éramos.
Sem passado.
Sem segredos.
Apenas o presente.
Às vezes, acordo a meio da noite.
Olho para ele a dormir ao meu lado… e pergunto-me se tudo não passou de um sonho.
Mas depois ele pega na minha mão.
Como antes.
E eu sei.
É real.
Continua a ser o mesmo homem.
Aquele que “morreu” uma vez…
Apenas para voltar a viver… e escolher-me outra vez.
FIM.