O Sétimo Dia: A Lição da Sombra

A luz suave do sol da manhã filtrava-se pelas cortinas translúcidas do hotel, desenhando uma linha dourada sobre o lençol. Num reflexo tolo, estendi a mão na cama à procura de calor.

O espaço ao meu lado estava vazio.

A almofada ainda guardava a marca da cabeça de Ethan. Vindo de além da porta entreabierta da varanda, ouvi sua voz — um murmúrio baixo e cauteloso, o mesmo tom que ele usava quando não queria ser ouvido por ninguém.

Durante três anos, eu havia amado aquele homem. Havia suportado ver Lena, sua mãe, ligar no meio dos nossos jantares românticos, escolher as gravatas dele para as entrevistas de emprego e, numa viagem de férias, enfiar a mão no enquadramento de uma foto apenas para me afastar do braço dele sob o pretexto de que eu «o estava a segurar mal».

«Depois do casamento, isso acaba, te juro, Avery. Dá um tempo», prometera-me Ethan uma semana antes da cerimónia.

E eu tinha acreditado.

Levantei-me da cama, caminhei descalça pelo piso frio e aproximei-me da varanda. A porta estava aberta apenas o suficiente para a sua voz escorregar para dentro do quarto.

— Não, mãe... no início ela estava nervosa, sim. Disse-lhe exatamente o que me mandaste. Não, não foi como tu tinhas avisado...

Um frio cortante atravessou o meu peito. Ele estava a falar com ela sobre a nossa intimidade da noite anterior.

Esperei que ele voltasse para o interior do quarto, sentindo a garganta completamente seca.

— Acabaste de contar à tua mãe o que aconteceu ontem à noite? — perguntei, a voz trêmula.

Ethan nem sequer piscou.

— Ela ligou às seis da manhã, Avery. Atendi meio a dormir. Perguntou como eu estava e eu... — Deu de ombros, como se o resto fosse óbvio demais para ser verbalizado. — Simplesmente me escapou.

— Simplesmente te escapou?

— Não comeces. Ela só perguntou se tinha corrido tudo bem.

— Ethan, ela não tem o direito de perguntar isso!

— Não é para tanto. É a minha mãe. Eu nem estava a pensar.

Isso eu bem sabia. E era exatamente isso o que me aterrorizava: ele respondia aos comandos de Lena como um cão adestrado a um apito, antes sequer de se lembrar da minha existência.

— Tu prometeste — sussurrei.

— E eu estava a falar a sério! A minha mãe apanhou-me de surpresa antes de eu abrir os olhos, foi só isso. Não fui eu que liguei.

Fiquei ali parada, vestida com o roupão do hotel, a aliança de casamento a brilhar inutilmente sob a luz fraca, sem encontrar uma única palavra que me trouxesse paz. Então, calei-me. Tinham-me ensinado desde pequena a engolir em seco, a sorrir e a guardar silêncio.

Lembrei-me de Richard, o pai de Ethan. Na noite do jantar de ensaio, ele tinha-me posto um copo de água na mão em absoluto silêncio, logo após Lena anunciar diante de toda a mesa que eu estava «demasiado magra para ter ancas de mãe». Richard quase nunca falava, mas o seu silêncio nunca me parecera vazio; era o silêncio de quem observa um incêndio à distância, pacientemente à espera do vento certo.

— Querida — disse Ethan, com um tom mais brando —, estás a dar demasiada importância a isto.

— A sério?

— A minha mãe só me quer bem.

— Isso não é amor, Ethan.

Ele abriu a boca para replicar, mas o telefone vibrou na mesinha de cabeceira. Uma, duas vezes. Olhou para o ecrã e vi o sangue drenar lentamente do seu rosto, num tom de pura culpa.

— O que se passa?

— Nada. É só que... — Ele limpou a garganta. — Os meus pais estão cá embaixo.

— Cá embaixo onde?

— Aqui. No hotel.

Tive de me sentar na borda da cama porque as minhas pernas fraquejaram.

— Eles vieram de avião — acrescentou depressa. — Para, sabes... nos fazer companhia. Foi uma surpresa!