Eu realmente ri sozinho no apartamento.
A mensagem dela chegou antes que eu pudesse largar o celular: “Oi, estranho. Você tem olhos muito gentis. O que você faz da vida?”
Eu encarei as palavras. Olhos gentis. Doze anos atrás, ela tinha dito para uma cafeteria inteira que meus olhos pareciam os de uma vaca triste.
Respondi algo neutro sobre consultoria e, no início, não mencionei o nome da empresa.
Ela respondeu rápido: “Isso é incrível. Sempre admirei pessoas que construíram algo do zero. Me conte tudo.”
Não havia nenhum reconhecimento. Eu era um desconhecido limpo para ela. Daniel era um nome comum, e aparentemente o novo maxilar e os quilos extras de músculo fizeram o resto.
Liguei para Marcus antes de pensar demais.
“Você não vai acreditar com quem eu dei match.”
“Por favor, me diga que é sua ex.”
“Pior. Madison. Da nossa cidade.”
Houve uma pausa na linha.
“A Madison do baile? Aquela cujo nome você falava como se fosse um palavrão?”
“Essa mesma.”
“Daniel”, ele disse devagar, “me diz que você deslizou para a esquerda.”
“Eu deslizei para a direita.”
“Por quê?”
Encostei no balcão. A verdade era que eu não sabia totalmente.
“Curiosidade, acho.”
“Curiosidade matou o gato, irmão. O que você quer com isso?”
“Não sei. Talvez nada. Talvez eu só queira ver a cara dela quando descobrir quem eu sou.”
Marcus soltou o ar. “Isso parece vingança vestida de curiosidade.”
“Talvez seja.”
“Olha, você passou dez anos construindo uma vida que não tem nada a ver com ela. Tem certeza de que quer trazer isso de volta, mesmo que só por uma noite?”
Olhei para a janela, para meu reflexo sobre as luzes da cidade. “Ela não sabe que sou eu, Marcus. Pela primeira vez, eu decido como essa história termina.”
“E qual versão de você vai escrever isso?”
Isso acertou mais forte do que eu queria admitir. Falei que ia pensar e desliguei.
A próxima mensagem dela já estava lá: “Quer tomar um drink na sexta? Tem um wine bar na Elm que eu adoro.”
Meu polegar ficou suspenso. Pensei no garoto que comia na biblioteca. Pensei no homem que o ensinou a parar de pedir desculpas por existir.
“Sexta funciona”, digitei.
Sexta chegou mais rápido do que eu esperava. Fiquei em frente ao espelho do banheiro, ajustando a gravata, observando o homem de volta. Ombros mais largos. Olhar mais calmo. Um maxilar que já não se encolhia diante do próprio reflexo.
Eu mal reconhecia nele o garoto que Madison costumava atormentar. Esse era o ponto, eu me lembrava. Sempre tinha sido o ponto.
Ajustei a gola mais uma vez. O garoto que ela lembrava não existia mais. A pergunta era qual versão de mim entraria naquele wine bar — e qual sairia.
O wine bar era mais quente do que eu esperava, luz baixa refletindo na borda do copo de Madison enquanto ela se inclinava como se fôssemos velhos amigos. Ela inclinou a cabeça quando falei.
Ela lembrava o nome do projeto que mencionei na conversa depois que marcamos o encontro.
“Você sabe”, ela disse, passando o cabelo atrás da orelha, “sinto como se te conhecesse há anos.”
Quase sorri de verdade. Quase.
“Engraçado”, eu disse. “A maioria das pessoas leva um tempo para se acostumar comigo.”
“Comigo não. Eu sei julgar caráter.”
Deixei aquilo no ar sem responder.
“Então como foi o ensino médio pra você?”, perguntei. “Na sua cidade natal.”
A voz dela mudou para aquele tom brilhante e performático que eu lembrava dos corredores da escola. Ela contou uma história sobre o antigo grupo de amigos dela, aquele que eu já conhecia bem demais.
“Meu Deus, você ia morrer de rir”, ela disse. “Tinha esse garoto enorme e estranho que ficava seguindo a gente. Tipo, muito esquisito.”
Meus dedos pararam no copo.
“Meus amigos e eu inventávamos apelidos pra ele”, ela continuou. “Só pra se divertir. A escola era tão chata, sabe?”
“Apelidos”, repeti.
“Sim. Cruéis. Nem deveria falar em voz alta.”
“Tenta.”