Eu não gostava do ensino médio porque a rainha do baile tornava minha vida miserável – 12 anos após a formatura, ela deu match comigo no Tinder e não fazia ideia de quem eu era.

 

Ela riu, animada por eu ter perguntado, e disse dois dos apelidos. Eu conhecia os dois. Já tinha ouvido os dois, sussurrados atrás de mim na aula de química, gritados no refeitório, escritos uma vez num armário.

“Parece pesado pra ele”, eu disse, controlado.

“Ah, para. Ele provavelmente ainda mora no porão da mãe dele.” Ela tomou vinho, satisfeita.

 

Perguntei se ela já tinha se perguntado o que aconteceu com ele. Se já tinha pensado que talvez as piadas tivessem pesado mais do que ela imaginava.

“Sinceramente?”, ela deu de ombros. “Criança é criança. Ele precisava criar casca.”

O garçom passou e reabasteceu nossa água. Ela sorriu de leve, gentil, sem relação com nada disso — e de algum modo aquilo me estabilizou mais do que o vinho.

 

Madison se inclinou de novo. “Enfim. Chega de história antiga. Me conta mais sobre sua empresa. Eu vi aquela matéria na revista, inclusive. Muito impressionante.”

Coloquei o copo na mesa lentamente.

“A revista”, eu disse.

 

“Uhum. Foi assim que eu meio que…” Ela riu, sem jeito, ensaiada. “Ok, confissão. Quando você falou o nome da empresa no chat, eu pesquisei. Vi a matéria. Eu sempre quis entrar nessa área. Pensei, sabe, talvez a gente pudesse conversar.”

“Aqui estava o problema.”

“O quê?”

“Isso foi uma entrevista de emprego”, eu disse.

“Não, não, não assim.” Ela tocou meu pulso. “Eu realmente estou gostando de você. Mas pensei: por que não os dois?”

“Os dois.”

“Você é bem-sucedido. Você é gentil. Parece alguém que gosta de ajudar.” Ela sorriu, suave e ensaiado. “E eu podia usar uma ajuda agora. Não é crime, é?”

 

Olhei para ela. De verdade. Os mesmos olhos que riram de mim do outro lado de uma cafeteria doze anos atrás, agora em um rosto que aprendeu novos truques, mas manteve os antigos instintos.

Ela ainda falava, algo sobre networking, algo sobre como era raro conhecer alguém com quem se conectava.

 

Deixei ela terminar. Eu devia isso a mim mesmo, ouvir tudo, para não restar dúvida depois. Então peguei meu copo, tomei um gole lento e decidi exatamente como aquilo terminaria.

Esperei ela terminar de rir. Então me inclinei e repeti os apelidos para ela. Palavra por palavra. Os únicos que ela nunca esqueceria.

A cor sumiu do rosto dela.

“Meu nome é Daniel”, eu disse baixo. “Só Daniel.”

 

O reconhecimento caiu sobre ela em tempo real. A boca abriu, fechou, abriu de novo.

“Meu Deus. Daniel, eu, eu não. Você está tão diferente, eu.”

“Eu sei.”

“Isso foi há tanto tempo. Éramos crianças. Eu era idiota, eu—”

 

Então as lágrimas vieram. No automático.

“Por favor, eu tive um ano tão difícil. Eu vi sua empresa naquela revista e pensei que talvez, se você pudesse me ajudar, só uma entrevista, eu—”

 

Ali estava a verdadeira razão.

Eu me recostei e a observei. De novo.

A mulher polida à minha frente era a mesma garota que ria no corredor, só com melhor iluminação.

“Você não deu match comigo”, eu disse. “Você deu match com meu cargo.”

“Daniel, não é isso.”

“Tudo bem. Eu não estou com raiva.”

 

E, dizendo isso, percebi que era verdade.

“A criança que você atormentou passou doze anos se reconstruindo para nunca mais precisar da sua aprovação”, eu disse. “Talvez valha a pena você se perguntar por que, depois de todo esse tempo, ainda está usando as pessoas do mesmo jeito.”

 

Ela não respondeu.

Chamei o garçom, uma mulher gentil de olhos cansados, e paguei a minha parte.

“Obrigado”, eu disse. “Boa noite.”

 

Saí para o ar frio. A rua estava silenciosa. Meu peito também.

Liguei para Marcus e ri, leve, sem amargura.

“Como foi?” ele perguntou.

“Ela nunca teve poder sobre mim. Eu só não sabia disso antes.”

 

Então apaguei o app.