Daniel chegou em casa às quatro da tarde.
Eu estava dobrando roupas na sala quando ouvi a batida seca da porta da caminhonete. Depois, o silêncio. Nenhum som. Nem mesmo o ranger da porta de tela se abrindo.
Caminhei até a janela e senti minhas pernas fraquejarem antes mesmo de entender o motivo.
Meu filho estava parado no corredor, completamente encharcado até os ossos, tremendo tanto que parecia incapaz de dar mais um passo. O colete salva-vidas ainda estava firmemente preso ao seu peito. O cabelo colado na testa.
Maya não estava atrás dele.
Abri a porta da frente numímpeto.
— Daniel?!
Ele olhou para mim, e o rosto dele se desfez em pura agonia.
— Ela afundou! — gritou, a voz quebrada pela desespero. — Mãe, ela afundou no rio! Eu tentei! Juro que tentei alcançá-la, mas não consegui achá-la!
— Do que você está falando?!
— O rio. Maya estava lá, e de repente sumiu. Eu mergulhei, mergulhei uma vez atrás da outra, mas... ela afundou.
Desabei na cadeira da varanda, ouvindo minha própria voz ecoar como se viesse de muito longe, mandando-o ligar para a emergência, sentar-se e respirar fundo.
Meu filho desabou no chão aos meus pés, escondendo o rosto entre as mãos e soluçando sem controle.
A polícia chegou em menos de trinta minutos. Depois vieram mais viaturas. Em seguida, mergulhadores, barcos de resgate e dezenas de voluntários de três municípios se uniram às buscas.
Meu mundo ruiu.
Durante duas semanas, eles pentearam cada centímetro daquelas margens, quilômetro após quilômetro. Nunca encontraram o corpo da minha sobrinha. Acharam apenas o seu chapéu de sol, preso a um galho a trezentos metros rio abaixo, e uma de suas sandálias. Mas dela, nemombra.
O investigador responsável pelo caso era um homem bondoso, de olhos cansados. Ele interrogou Daniel três vezes. Eu fiz questão de estar presente no último depoimento, a pedido do próprio meu filho.
— Conte-me de novo como aconteceu, rapaz — pediu o policial.
— Estávamos numa curva rasa. Ela quis trocar de lado no caíque. Eu mandei ficar quieta, mas ela se levantou, perdeu o equilíbrio e caiu — respondeu Daniel, com a voz firme, sem vacilar em um único detalhe. Nem uma única vez.
Mais tarde, no corredor, eu disse ao comissário:
— Acredito nele. Ele a amava como se fosse filha dele. Veja o estado do meu filho, ele quase morreu de hipotermia tentando salvá-la.
O inspetor assentiu lentamente.
— Acontece. Os rios podem ser implacáveis.