Depois de cinco anos dando banho no meu marido paralítico, ouvi-o rir e dizer que eu era "uma enfermeira gratuita". Naquele dia eu não gritei... naquele dia comecei a tirar tudo dele sem que ele percebesse.

 

"Uma fortuna."

"Bem, eu a tenho para me sustentar e me abrigar."

Algo morreu dentro de mim.

Eu não chorei.

Não entrei gritando.

Não joguei conchas na cara dele.

Apenas me virei e saí do hospital, com as pernas tremendo.

No estacionamento, sentei no meu carro.

Apertei o volante com força até meus dedos doerem.

E disse baixinho:

"Acabou."

Naquela noite, não fui atrás dele.

Chamei uma ambulância.

Quando ela chegou em casa, ele me olhou com raiva da maca.

"Onde você estava? Eu estava te esperando."

"Ocupada."

Ele franziu a testa.

"Você trouxe meu pão?"

Olhei para ele.

Pela primeira vez em cinco anos, eu o observei de verdade.

Não via mais o homem doente.

Vi o monstro confortável.

"Esqueci."

Seu rosto mudou.

"Como assim, esqueci?"

Não respondi.

Ajeitei seu travesseiro.

Cubri suas pernas.

Dei-lhe os remédios.

Fiz tudo como antes.

Mas por dentro, eu não era mais a mesma.

No dia seguinte, comecei.

Primeiro, examinei os papéis.

Faturas.

Contas.

Escrituras.