Levantei às cinco, fiquei na fila, comprei-as ainda quentinhas e fui para o centro de reabilitação.
Queria fazer uma surpresa para ele.
Que ridícula eu era.
Quando cheguei, vi-o no pátio, sentado em sua cadeira de rodas, conversando com um homem que eu não conhecia.
Parei atrás de uma coluna para arrumar o cabelo.
Então ouvi sua risada.
Uma risada pura.
Alta.
Cruel.
"Não, amigo, eu já ganhei", disse Esteban. "Brenda é enfermeira, empregada doméstica, cozinheira e motorista... tudo de graça."
Senti o saco de pão escorregar das minhas mãos. O outro homem riu.
Esteban continuou:
"Ela é tão obcecada por 'na saúde e na doença' que nunca vai embora. Eu a tenho na palma da minha mão. Saúde!"
Eu engasguei.
"E a herança?" perguntou o homem.
Esteban caiu na gargalhada novamente.
"Tudo para o meu filho, obviamente. Para o Tomás. Ele é meu sangue. A Brenda só está cuidando da casa até eu morrer."
Meu coração se partiu.
Tomás.
O filho dele de outro casamento.
O mesmo que entrava na minha casa sem dizer olá.
O mesmo que deixava a louça suja e me chamava de "senhora" como se eu fosse uma empregada.
O mesmo com quem Esteban me pediu paciência.
"Dói nele me ver assim, Brenda."
Mentira.
Para os dois, era conveniente me ver abatida.
Esteban falou novamente:
"Além disso, enquanto ela limpa minha bunda, eu não gasto um centavo. Você sabe quanto ganha uma enfermeira em tempo integral?"
O homem respondeu: